sábado, 29 de junho de 2013

Rentabilidade - Junho de 2013

É bonito ver essa queda toda. E falo sério! O medo, o desespero, as previsões apocalípticas e o princípio de pânico retratados na imprensa, fóruns e blogs, geram um sentimento diferente quando se está comprado na bolsa em relação a ser apenas um observador externo. Em 2008, eu não estava na bolsa, então não sabia como era a sensação. Alguns vão dizer que agora não se compara a 2008, mas discordo.

Eu mantenho um planilha com um cálculo do Ibovespa ajustado e ela aponta, em um dos cenários, que hoje já estamos mais barato que o fundo de 2008. Em 2008, a queda foi grande, mas como seu início partiu de um ponto muito esticado em relação a uma linha base, a maior parte da queda se deu por excesso de crescimento. O delta da queda de agora pode até ser menor, mas como ela partiu de um nível bem inferior ao pico de 2008, o resultado é uma depressão expressiva na bolsa.

O momento é um oportunidade ímpar para entrar na bolsa. Não que não vai cair mais, pois até acho que isso vai acontecer, como já tinha dito aqui e aqui, mas não dá para ficar inerte tentando acertar o fundo. Vou fazer um post detalhando como calculei isso para ficar mais claro.

O rendimento da carteira PB foi de -7,55% contra uma queda do Ibovespa de 11,31%, o que me deu uma vantagem de 4,23%, superando com folga a minha meta. O rendimento no ano é de -1,93%, zerando os ganhos do ano. O rendimento acumulado despencou para 13,70%. Veja o quadro abaixo para mais detalhes:



Na prática fiquei R$ 11.300,00 mais pobre. A estratégia de todo mês ganhar do Ibovespa por uma margem mínima mostrou seu valor nessa queda. Desde o começo da carteira, as compras mensais foram realizadas com Ibovespa na faixa de 55 a 60 mil. Porém, precisou o Ibovespa cair para os 48 mil pontos para que a carteira voltasse a ter o valor exatamente igual a grana que aportei.

Isso ocorreu, porque a carteira PB ganhou do Ibovespa em 11 dos 13 meses da carteira, então criou-se uma capa de gordura que foi sendo consumida ao longo dos últimos 3 meses de queda.

Outra forma de ver isso, é como se eu tivesse hoje, com Ibovespa bem barato, entrando na bolsa agora com toda a grana que aportei e comprando as ações que tenho hoje pelo preço de agora. Ou seja, comprando por preços baratos. 

Entretanto, a capa de gordura acabou, então se continuar caindo, vou pela primeira vez operar com menos grana do que investi.

Este mês não iria aportar nada, pois o aporte de junho já tinha antecipado em maio, mas não resisti e no final do mês aportei R$ 10.000,00. Com essa grana reforcei posição em pine4, cgra4, unip6, cple3 e euca4. Não vendi nada.

A carteira atual ficou assim:



Nesse mês, recebi R$ 402,00 de proventos de 3 empresas.

Sucesso a todos!

sábado, 8 de junho de 2013

Balanço de aniversário da carteira PB

A carteira PB completou 1 ano de aniversário no final de maio e quem já era meu leitor pôde acompanhar mensalmente os resultados obtidos. Agora vou apresentar o resultado consolidado desse período.

Foram doze meses aportando em renda variável, especificamente só em ações. Durante esse período, todas as compras e vendas foram baseadas na mesma estratégia de seleção dos papeis. A estratégia que usei foi retirada do livro "What Works on Wall Street" de James O’Shaughnessy (http://www.whatworksonwallstreet.com).

Esse livro compila dezenas de estratégias de investimentos baseadas em múltiplos fundamentalistas. Cada estratégia é testada com dados passados de várias décadas e os resultados obtidos apresentados detalhadamente.

Se quiser ter uma ideia melhor de como foram testadas algumas dessas estratégias, leia os seguintes posts: Investir com base no Preço/Lucro é eficaz?Investir com base no P/VP é eficaz? e Investir com base no DY é eficaz?. No caso da carteira PB, a estratégia utilizada é baseada em uma das que obteve o maior rendimento apresentado no livro.

Em doze meses a carteira PB rendeu 23% líquido de todos os custos de operação, tais como custódia, corretagens e emolumentos. Isso significa que R$ 100,00 investidos no primeiro dia teriam virado R$ 123,00, caso não se tivesse aportado nem sacado nenhuma outra quantia. No mesmo período, o investimento de R$ 100,00 no índice Bovespa teria virado R$ 98,20. Considero esse resultado excelente, muito além da minha expectativa.

Conforme eu já tinha discorrido no post Batendo o Ibovespa, a meta que adotei para a carteira PB é obter rendimento igual ou superior ao do índice Bovespa acrescido de 10% ao ano. Ou seja, uso o Ibovespa como benchmark da carteira, mas não me satisfaço apenas em ser maior do que ele, a carteira tem que conseguir pelo menos 10% a mais. Mais sobre benchmarks para carteiras leia no post Benchmark correto para sua carteira.

Então, como o resultado foi 25,2% maior que o Ibovespa, a meta foi superada com folga. O gráfico abaixo ilustra o rendimento da carteira PB nos últimos doze meses. A linha Meta nada mais é que o Ibovespa acrescido de 0,8% ao mês, que totalizam os 10% a mais em um ano. O objetivo é ficar acima da linha verde e não apenas da vermelha.

Tendo em vista que o índice SMLL vem performando melhor que o Ibovespa, então informalmente estou mantendo uma comparação com ele também. Isso porque como existe ETF que replica o SMLL, caso eu fique acima da meta, mas sistematicamente abaixo do SMLL, então devo avaliar se não compensaria migrar para o ETF. 


Pelo gráfico nota-se que apenas em dezembro a carteira PB esteve abaixo da meta, mas logo se recuperando e imprimindo boa vantagem. Já o índice SMLL deu calor nos primeiros sete meses, mas a partir de janeiro pediu água. Dos doze meses, a carteira PB rendeu mais que o Ibovespa em 10 e menos em 2 meses.

O rendimento de 23% é tão bom, que caso fosse possível repeti-lo todo ano, mesmo sem aportar mais nada ao montante já aplicado, eu me tornaria bilionário em 42 anos.

Com relação ao crescimento patrimonial, ele não cresceu 23% como se poderia crer, porque o montante não foi todo aportado no início, mas gradualmente ao longo dos meses. Assim, foi aportado no total R$ 140.000,00, que se tornou R$ 150.763,00, um acréscimo de 7,7%. Caso tivesse aportado R$ 140.000,00 todo no começo, aí sim teria obtido uma ganho de 23% e hoje teria R$ 172.000,00.

Recebi no total R$ 2.200,00 de proventos, nos quais incluem os dividendos, os juros sobre capitais e direitos de subscrições. Mais da metade desses proventos recebi em um único mês, maio passado. O valor desses proventos já está incluso no rendimento apresentado.

Para visualizar melhor o rendimento da carteira PB, fui em busca de uma comparação com o rendimento dos fundos de ações disponíveis no mercado. Os Fundos de Investimentos em Ações - FIA - são aqueles com pelo menos 67% aplicado em ações, conforme classificação da Comissão de Valores Mobiliários, ao que a carteira PB se enquadraria, já que tem 100% aplicado em ações. No site Infomoney é possível obter um ranking de rendimento desses fundos.

Peguei o ranking dos FIA exatamente no período de 31/05/12 a 31/05/13. O ranking tem 421 fundos listados. O maior rendimento foi de 60% do fundo Banrisul Ações FI e o pior do Itaú Pers Ações Multi Setorial com -22%. A média de rendimento foi 11%, exatamente igual a mediana, o que revela uma distribuição normal, aquela em forma de sino. O desvio padrão foi de 11,4%. 

O gráfico abaixo é a distribuição dos 421 fundos e seus rendimentos.



Com 23% de rendimento a carteira PB ficou em 61º lugar no ranking, indicado pela seta 1 do gráfico. Essa posição é 1 desvio padrão acima da média.

Agora vem a vantagem de se operar uma carteira própria: todos esses fundos apresentam seus rendimentos pré imposto de renda, o que significa que seus investidores ainda terão que pagar 15% de IR, diminuindo o rendimento divulgado.

Já com carteira própria, posso vender até R$ 20.000,00 por mês sem precisar pagar IR, mesmo auferindo lucro. Na prática, então, um fundo para que renda 23% de forma líquida para o investidor precisa render 27% (27 x 0,85= 23). Dessa forma, o rendimento da carteira PB equivale a de um fundo que rendeu 27%, indicado pela seta 2. Essa subida leva a carteira PB para a posição 33ª do ranking. 

Essa vantagem da venda até os R$ 20.000,00 diminuirá com o tempo, pois à medida que a carteira crescer não será possível acomodar as vendas dentro desse limite.

Concluindo, o resultado bem acima da meta é animador e encoraja o prosseguimento dos aportes e a manutenção da estratégia adotada.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Rentabilidade - Maio de 2013

Voltando agora de viagem do feriado e como eu só tinha a internet no celular não dava para postar o rendimento antes.

Esse mês mais algumas dados decepcionaram na economia. Já são vários os indicadores que levam a um pessimismo para justificar onde o Ibovespa está. Inflação alta, juros subindo, dólar subindo, PIB subindo menos que o esperado, balança comercial negativa, transação corrente para lá de negativa e superávit primário caindo, esse mesmo com a manipulação das contas do governo. O único dado econômico importante que ainda resiste heroicamente é a taxa de desemprego baixa.

E é o emprego em alta que ainda segura o que sobrou da economia. Mais do que a renda auferida pelos trabalhadores empregados, a mola mestra da economia é o crédito para consumo, disponível justamente a quem tem renda formal. Se o desemprego seguir o caminho dos demais indicadores, além da perda da renda dessas famílias, a concessão de crédito vai diminuir, resultando na redução do consumo alavancados pelo crédito. 

Para piorar, esse cenário ruim ocorre num momento em que as bolsas lá foram estão em topos históricos, portanto com muita gordura para queimar em caso de algum país cair em crise e contaminar o resto do mundo. E não tem dessa de que aqui seria poupado só por que já está bem baixo. Pelo contrário, com os americanos sendo responsáveis por dois terços do giro da bolsa, se eles precisarem se recolher para protegerem seus capitais, aqui vai descer fundo.

Para ilustrar o que estou falando, na segunda passada, dia 27, foi feriado Memorial Day nos EUA, nesse dia aqui girou apenas R$ 2,5 bi, contra os R$ 7 a 8 bi de costume (a título de curiosidade só a Apple gira R$ 12 bi por dia na Nasdaq). Em resumo, a bolsa não tem capital nacional capaz de absorver a venda maciça dos americanos, caso seja preciso, sem que seja necessário grandes quedas do índice.

Então, se ocorrer uma evento externo ruim combinado com uma taxa de desemprego crescente aqui, pode-se apertar os cintos, por as poltronas na vertical e se preparar para uma pouso forçado que o Ibov nos 40k é logo ali. Mas chega de agourar, esse post é do balanço do mês.

O rendimento da carteira PB foi de -1,56% contra uma queda do Ibovespa de 4,30%, o que me deu uma vantagem de 2,86%, superando com folga a minha meta.  O rendimento no ano é de 6,08% e o acumulado geral 22,99%. Veja o quadro abaixo para mais detalhes.


Na prática fiquei R$ 2.120,00 mais pobre. Este mês aportei R$ 30.000,00, relativos a cota de abril, maio e junho. Com o fim da temporada de balanço, o meu sistema de compra e venda indicou o remanejamento que precisava ainda fazer. Vendi embr3, hbor3, csmg3 e dirr3. Comprei temp3, cple3, cmig3 e mndl3. E aumentei posição em 11 papeis que já tinha para manter a proporção próxima de 4% para cada.

A carteira atual ficou assim:


Nesse mês, os proventos foram recorde. Recebi R$ 1.247,00 de proventos de 14 empresas.

Sucesso a todos!

sábado, 11 de maio de 2013

Bonificação de HBOR3

Em abril, recebi bonificação de hbor3. Foi a primeira vez que recebi isso. A bonificação consistia em receber 30% a mais de papeis de graça. No meu caso, que tinha 400 papeis, recebi mais 120.



A bonificação é diferente do desdobramento ou grupamento (split/inplit). Esses dois últimos são meros ajustes numéricos no preço do papel e na quantidade possuída com o objetivo de colocar o preço do lote padrão num patamar atrativo. O tanto que um deles aumenta ou diminui é compensado na mesma proporção pelo outro, de forma que produto entre ambos permaneça constante. O preço médio fica também alterado na mesma proporção.

Já a bonificação trata-se de uma operação contábil. A empresa incorpora parte da reserva de lucros para aumentar o seu capital social. Isso em si não gera valor algum ao acionista, pois se trata apenas de reduzir o valor na rubrica de reserva de lucro e aumentar a de capital integralizado, de modo que o patrimônio líquido continua o mesmo. Em suma, tinha um dinheiro na conta com um certo nome que passou a ter outro, mas a quantia não mudou.

Mas veja o que ocorreu na prática no caso da hbor3. Eu tinha 400 papeis a um preço médio de R$ 11,57. Recebi 120 papeis de graça, mas para efeitos fiscais custaram R$ 5,04 cada, conforme a Helbor declarou. Pela cotação do dia 30/04, o papel fechou em R$ 9,94, o que equivale a R$ 12,92 (9,94 x 1,3) antes do ajuste da bonificação e como o meu PM era R$ 11,57, então eu tinha 11,6% de ganho.

Ou seja, antes da bonificação eu estava no lucro. A bonificação faz os mesmos ajustes no preço e na quantidade da mesma forma que o desdobramento, então, também, não tem o poder de alterar os ganhos e as perdas. Ou seja, após a bonificação eu ainda continuo no lucro. Antes eu tinha 400 papeis a R$ 12,92 (preço de véspera de bonificação), que dava R$ 5.168,00, e passei a ter 520 papeis a R$ 9,94 que dá R$ 5.168,00. Tudo igual como se fosse um desdobramento.

Agora vem a diferença da bonificação para o desdobramento. Se a ação tivesse apenas se desdobrado, eu teria 520 papeis a um preço médio de R$ 8,90 (11,57/1,3), o que me daria o mesmo rendimento de 11,6% ao preço pós bonificação de R$ 9,94 e me colocando no lucro. No entanto, como esses 30% vieram com um preço declarado de R$ 5,04, o meu preço médio terminou em R$ 10,06. Portanto, ao preço de mercado de R$ 9,94 eu passei a ter prejuízo, pois o meu PM é maior que preço do papel. Mas esse prejuízo é apenas contábil, financeiramente o meu ganho ainda existe.


Isso ocorre, porque apesar de você receber de graça a ação da bonificação, ela chega com um preço como se você tivesse pago por ela. No caso, o preço de R$ 5,04 por papel. Esse preço é calculado pela empresa em função da reserva de lucro incorporada. No caso da hbor3, ela incorporou 300 milhões de reais e criou cerca de mais 60 milhões de ações.

O novo preço médio do acionista é calculado conforme dispõe o art. 47 da Instrução Normativa 1.022/2010 da Receita Federal:
§ 1 º   No caso de ações recebidas em bonificação, em virtude de incorporação ao capital social da pessoa jurídica de lucros ou reservas, considera-se custo de aquisição da participação o valor do lucro ou reserva capitalizado que corresponder ao acionista ou sócio, independentemente da forma de tributação adotada pela empresa. 
Fazendo esse cálculo o meu preço médio não caiu 30% para compensar o ganho de 30% de ações novas, como ocorre no desdobramento, mas caiu apenas 13%, o que fez eu sair do lucro para o prejuízo contábil.

Curiosamente, e lamentavelmente, a minha corretora ainda mostra meu preço médio como sendo R$ 11,57. Ou seja, ela entendeu que os 120 papeis novos chegaram pelo mesmo preço dos antigos. Se eu não soubesse desse erro, a corretora poderia me levar a sonegar imposto. Pois caso o preço do papel suba para R$ 11,50 e eu os vendesse, pela corretora eu não teria de pagar imposto, mas como na verdade meu preço médio é R$ 10,06 eu teria que pagar alguma coisa.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Rentabilidade - Abril de 2013

O rendimento da carteira PB foi de -0,71% contra uma queda de 0,78% do Ibovespa, o que resultou num empate técnico com o Ibov. Então, esse mês não alcancei a meta que seria de ter fechado em pelo menos 0,01%.


Mas os rendimentos anuais e históricos ainda estão bem acima das respectivas metas. Não aportei nada esse mês. Rendimento no ano de 7,77% e histórico de 24,94%.



Fiquei R$ 880,00 mais pobre. Os destaques positivos do mês foram sled4 com 19%, whrl4 com 14%, eter3 e dirr3 com 10%. Os destaques negativos foram euca4 com -16%, dayc4 com -13%, fjta4 e unip6 com -10%

Recebi R$ 335,00 de proventos vindos de diversos papeis. Recebi uma bonificação de 120 ações da hbor3, que equivale a 30% da posição de 400 que eu tinha. Foi a primeira vez que recebi bonificação.

Veja a carteira de fechamento de mês:


Nesse mês não comprei nem vendi nada. 

Em maio volto às compras com o aporte triplo, que vou fazer em razão da nova safra de balanços.

Sucesso a todos!

domingo, 14 de abril de 2013

Por que o Buffett não paga dividendos?

Nos últimos anos o rendimento da holding do Buffett vem decepcionando muitos investidores. Só para se ter uma ideia, nos últimos dez anos o rendimento anual das ações da Berkshire perdeu para o S&P500 cinco vezes. Nos outros 38 anos anteriores isso só tinha ocorrido quatro vezes. Em razão disso, muitos investidores reforçaram a cobrança por pagamentos de dividendos. Essa cobrança repercute em muitas matérias na mídia e o Buffett se viu obrigado a explicar porque não paga dividendos. Na verdade, a holding dele pagou apenas uma vez dividendos em 1967 e ele disse, brincando, que deveria estar no banheiro na hora que decidiram isso.


Na carta anual ao seus investidores desse ano, ele apresentou a seguinte explicação do porquê não pagar dividendos:

"Vamos começar assumindo que você e eu somos igualmente os donos de um negócio com US$ 2 milhões de patrimônio líquido. O negócio ganha 12% sobre o patrimônio líquido tangível - $ 240.000 - e pode-se razoavelmente esperar ganhar os mesmos 12% sobre os lucros reinvestidos. Além disso, há pessoas de fora que sempre desejam comprar o nosso negócio a 125% do patrimônio líquido. Portanto, o valor de cada um de nós é hoje de US$ 1,25 milhões.

Você gostaria que nós dois acionistas recebêssemos um terço do lucro líquido anual de nossa empresa e que dois terços fossem reinvestidos. Você considera que este plano vai equilibrar muito bem as suas necessidades, tanto para a renda atual quanto para o crescimento de capital. Então você sugere que se pague US$ 80.000 do lucro líquido e se retenha 160.000 dólares para aumentar os ganhos futuros da empresa. No primeiro ano, o seu dividendo seria de $ 40.000, e como o lucro cresceu e a distribuição de um terço foi mantida, então seu dividendo também cresceu. No total, os dividendos e o valor de ações vão aumentar 8% cada ano (12% de ganho do patrimônio líquido menos 4% do valor líquido pago).

Depois de dez anos a nossa empresa teria um patrimônio líquido de 4.317.850 dólares (o original de $ 2 milhões composto em 8%) e seus dividendos no próximo ano seriam $ 86.357. Cada um de nós teria ações no valor de $ 2.698.656 (125% da nossa metade do patrimônio líquido da empresa). E que viveríamos felizes para sempre – com os dividendos e o valor das nossas ações crescendo continuamente a 8% ao ano.

Há uma abordagem alternativa, no entanto, que nos deixaria ainda mais feliz. Sob este cenário, se deixaria todo o lucro com a empresa e cada um de nós venderia 3,2% de nossas ações anualmente. Como as quotas seriam vendidas a 125% do valor contábil, essa abordagem poderia produzir os mesmos US $ 40 mil em dinheiro, inicialmente, uma quantia que cresceria anualmente. Essa alternativa será chamada de "sell-off".

Sob este "sell-off" cenário, o patrimônio líquido da nossa empresa aumenta para $ 6.211.696 após dez anos ($ 2 milhões composto em 12%). Como nós venderíamos nossas ações a cada ano, a nossa participação percentual seria diminuída, e, depois de dez anos, teríamos cada 36,12% do negócio. Mesmo assim, a sua parte líquida da empresa seria 2.243.540 dólares. E, lembre-se, cada dólar de patrimônio líquido atribuível a cada um de nós pode ser vendido por US$ 1,25. Portanto, o valor de mercado de suas ações remanescentes seria $ 2.804.425, cerca de 4% maior do que o valor de suas ações, se tivéssemos seguido a abordagem de dividendos.

Além disso, seus recebimentos anuais da política de sell-off estariam agora 4% maiores do que você teria recebido sob o cenário de dividendos. Voila! - Você teria tanto mais dinheiro para gastar anualmente e maior valor de capital.

Este cálculo, naturalmente, supõe que a nossa empresa hipotética pode ganhar uma média de 12% ao ano em patrimônio líquido e que seus acionistas podem vender suas ações por uma média de 125% do valor contábil. Para esse ponto, o S&P500 ganha consideravelmente mais do que 12% sobre o patrimônio líquido e é vendido a um preço muito acima de 125% do que o valor líquido.

Ambas as hipóteses também parecem razoável para Berkshire, embora certamente não assegurada. Além disso, do lado positivo, há também a possibilidade de que os pressupostos serão ultrapassados. Se o forem, o argumento para a política de sell-off torna-se ainda mais forte. Ao longo da história da Berkshire - reconhecidamente uma que não será perto de ser repetida - a política de sell-off teria produzido resultados para acionistas dramaticamente superior ao da política de dividendos."

"Vou pagar ZERO de dividendo", respondendo a mais uma pergunta sobre isso.
Para reforçar a sua explicação, o Buffett cita ele mesmo com exemplo. Disse que nos últimos 7 anos tem vendido 4% de sua participação ao ano e que isso resultou na redução de 712 milhões para 528 milhões de ações. No entanto, o seu patrimônio, ainda assim, subiu de 28 para 40 bilhões de dólares no mesmo período.

Analisei detidamente essa calculeira dele para entender porque o método sell-off é melhor do que a distribuição de dividendo. O segredo da mágica está em duas coisas: no custo de oportunidade e no ágio dos papeis.

Sobre o custo de oportunidade, ao deixar o lucro com a empresa, ele presumiu que esse lucro também vai ser reinvestido à taxa de 12% que arbitrou. Quando se recebe um terço como dividendo, esse dinheiro ele presume que você gastou, ou seja, não investiu em nada, e apenas os outros dois terços foram reinvestidos a uma taxa de 12%, o que dará uma rentabilidade média de 8% (12 x 2/3).

No entanto, a presunção dele de que você vai gastar nem sempre é válida. Pode ser que o investidor quer o seu um terço em dividendo para investir, às vezes até em uma empresa que esteja rendendo mais de 12%. Mas vamos presumir que ele reinvestiria na própria Berkshire comprando mais papeis, e nesse caso o rendimento total voltaria a ser 12% e não 8%. Se estaria fazendo uma troca, o valor do papel cresceria a 8%, mas o investidor teria mais 4% de papeis, no final das contas, o seu patrimônio que é o produto do valor do papel pelo número de papeis seria o mesmo. Ou seja, se o investidor recomprar mais ações com o dividendo recebido o argumento do Buffett estaria neutralizado, pois tudo ficaria elas por elas.

Mas então como o método sell-off, vendendo aos poucos sua participação, ainda assim gerou mais valor para o investidor do que recebendo dividendos? Aqui entra o ágio nos papeis. Buffett presumiu que os papeis seriam vendidos a um preço 25% maior que o patrimônio líquido. Não que isso seja um problema, muito pelo contrário, o ágio existe mesmo, só verificar que a maioria das empresas tem p/vp maior que 1.

Então, para obter o rendimento de $ 40.000 por ano, ele não precisava vender 4%, mas apenas 3,2% de sua participação, que com o ágio do mercado teria o valor de 4%. A diferença de 0,8% não precisaria ser vendida, continuando rendendo 12% ao ano e ao final de dez anos daria a diferença que deu no total.

Se o Buffett monta um novo negócio ou por negociação direta compra uma empresa investindo 1 milhão, o preço desse negócio vai se refletir na bolsa por 1,25 milhão. Assim, o investidor que receber os dividendos, ao recomprar mais ações estaria pagando um preço maior, com ágio, e isso faria o investidor comprar menos papeis do que deveria para igualar o rendimento caso o dividendo não fosse distribuído. 

Além desses argumentos, Buffett apresenta outros dois para não se distribuir os dividendos. Primeiro, que não se chegaria a um consenso sobre qual percentual do lucro seria distribuído. Pois haveria investidores querendo todo tipo de percentual, afinal são 600.000 investidores. E segundo, e muito importante, nos EUA o investidor paga imposto sobre os dividendos. Isso corrói valor, pois a empresa pagou imposto sobre o lucro líquido e depois, caso parte desse lucro vire dividendo, o investidor paga de novo. É bitributação mesmo. Isso pelo menos não ocorre no Brasil. O dividendo é rendimento não tributável.

Eu pessoalmente não me preocupo muito com o percentual de pagamento de dividendos, famoso Dividend Yield. O fato da empresa pagar dividendos pode nos garantir apenas que lucro a empresa teve, pois se não houver lucro não tem de onde sair os dividendos. No entanto, o inverso não é verdadeiro, o fato da empresa não pagar dividendos não significa que a empresa não tenha lucro. Ela pode estar represando o lucro para reinvestir. Então, em vez de se preocupar com o dividend yield, é melhor olhar logo se a empresa tem lucro e se tem perspectiva de fazer bons investimentos com esse lucro, caso não os distribua.

Se quiser saber mais sobre DY, leia esse post passado, onde mostrei que um backtest de investimento baseado em DY contrariava a popular conclusão de que quanto maior o DY melhor.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O que é diversificação para o Buffett?

Quando um investidor de longo prazo, de estilo buy and hold, vai justificar o porquê de uma carteira com tão poucos papeis, ele logo cita Warren Buffet para respaldar sua estratégia. E vários outros investidores de longo prazo fariam o mesmo. É verdade que Buffett já condenou a diversificação diversas vezes. Isso é bem conhecido de todos os investidores. Vou citar duas frases atribuídas a ele:

"Wide diversification is only required when investor do not understand what they are doing."

"Grande diversificação é apenas requerida quando o investidor não entende o que está fazendo."

"Diversification is a protection against ignorance. It makes very little sense to those who know what they are doing."

"Diversificação é a proteção contra a ignorância. Ela faz pouco sentido para aqueles que sabem o que estão fazendo"

Mas eu fiquei me perguntando o que exatamente ele consideraria uma diversificação exagerada? Para responder essa pergunta eu comecei uma pesquisa na internet. Eu queria saber dele, Buffett, o que ele pensa sobre o assunto, e não saber de um escritor de livros sobre o Buffett o que ele acha que o Buffett pensa. Minha primeira parada foi neste ótimo documentário de 2009 sobre a vida do Buffett.

Fazendo um parenteses, a frugalidade desse homem é impressionante. Se eu fosse bilionário, tivesse mais de 80 anos e passasse várias horas sentado por dia, eu iria querer a melhor cadeira existente, ou até mandaria projetar uma específica para mim. No entanto, a minha cadeira de trabalho parece ser de melhor qualidade que a dele.

Voltando a diversificação, veja o que o Buffett diz em 11:10:



"If somebody owns 50 stocks, can they really like the one the rank as the number 50 as well as the one they rank as number 1? Can they know them as well? I don't thing so."

"Se alguém tem 50 papeis, será que ele gosta tanto da quinquagésima do ranking, quanto ele gosta da primeira colocada? É possível ele conhecer as duas tão bem? Eu acho que não." 

Então já temos um teto. Cinquenta papeis é demais. E quarenta e nove? Vinte? Dez? Cinco?

Encontrei também esse vídeo de uma palestra em um MBA. Em 1:10 ele responde o seguinte: 

"A pergunta é sobre diversificação e eu tenho duas respostas para isso. Se você não é um investidor profissional, se sua meta não é gerenciar recursos para obter retorno significante melhor que o mundo, então eu acredito em diversificação extrema. Eu acredito que 98, talvez mais de 99% das pessoas deveriam diversificar e não fazer trades. Então sobra para elas os fundos de investimentos em índice, uma decisão de baixo custo. Tudo que eles estão fazendo é sendo dono de parte dos EUA. Eles decidiram que ser dono de parte dos EUA vale a pena. Eu não questiono isso. Agora se eles quiserem por em jogo decisões intensas, começar analisando empresas e decidir por esforço e tempo na decisão, então eu acho que diversificação é um erro terrível. Se você realmente conhece as empresas, você não deveria ter mais do que 6 delas. Se você conseguir identificar 6 excelentes empresas, essa é toda a diversificação que você precisa. Você vai ganhar muito dinheiro. Eu posso garantir que investir mais na sétima empresa do que na primeira é um erro terrível. Poucas pessoas ficam ricas com a sétima melhor opção, mas muitas ficam ricas com a melhor opção. Eu diria que para qualquer pessoa trabalhando com capital normal que realmente conhecem as empresas em que está entrando, 6 é o suficiente. Eu pessoalmente não diversifico e todas as pessoas que conheço que estão indo bem não diversificam."


Essa palestra foi dada em 1998, não sei se ele ainda pensa assim, mas vamos considerar que sim. A primeira observação é que ele acha que quase todo mundo deveria investir passivamente em um fundo de índice. Isso seria a regra geral para os investidores. É simples e barato. Apenas um pequeno grupo, uma exceção a regra geral, deveria gerir sua própria carteira. Esse grupo, no entanto, teria que despender esforço e tempo na análise de empresas para encontrar as eleitas.


Buffet diz que essas pessoas devem realmente conhecer as empresas. Aqui que está o problema. Isso para mim é vago. Até que ponto deve o investidor se aprofundar na empresa para se considerar realmente um conhecedor dela e justificar sua exceção a regra geral? 


Será que precisaria conhecer as instalações fabris in loco? Conhecer o corpo diretor ou até o corpo gerencial? Conhecer a dinâmica no mercado em que a empresa se inscreve? Conhecer também as empresas concorrentes para comparação? Frequentar todas as assembleias ou pelo menos ouvir a teleconferência? Ou bastaria apenas ler os balanços trimestralmente?


Não sei a resposta disso. Mas dá para saber se o investidor é exceção ou deve voltar a regra geral. Quem vai dizer isso é o rendimento de sua carteira. Se depois de um prazo suficiente para gerar um histórico de rendimento, se a carteira estiver rendendo muito pouco acima, igual ou abaixo do que um fundo índice rende, então é melhor resignar-se e investir num fundo índice. Por isso é tão importante calcular e acompanhar o rendimento de sua carteira. No post "Benchmark correto para sua carteira", eu explico como fazer essa comparação.


Mas continuando com o que o Buffett pensa sobre diversificação fui pesquisar o que ele então faz com seus investimentos. Nada melhor para saber o que ele pensa sobre isso do que verificar na prática o que ele faz a respeito da diversificação. A resposta está em suas cartas anuais aos investidores.


Buffett é gestor da empresa holding Berkshire Hathaway Inc, que vale cerca de US$ 250 bilhões no mercado dos quais US$ 50 bilhões são do próprio Buffett. Essa empresa é proprietária de diversas outras, chamadas subsidiárias, que por sua vez podem ser proprietárias de outras. Pela última carta ao investidor compõem a holding as seguintes empresas:


Berkshire Hathaway Reinsurance Group (seguradora)

General Re (seguradora)
GEICO (seguradora)
BNSF (companhia ferroviária)
MidAmerican Energy (distribuidora de energia elétrica e gás natural)
HomeServices ( holding de várias corretoras de imóveis)
Marmon (uma holding de 150 empresas)
McLane Company (distribuidora de alimentos)
Acme Building Brands (fabricante)
Benjamin Moore (fabricante)
Johns Manville (fabricante)
Shaw (fabricante)
MiTek (fabricante)
Fruit of the Loom (roupas)
Forest River (fabricante de veículos de lazer)
IMC Metalworking Companies (ferramentas de cortes de metal)
CTB (fabricante de equipamentos agropecuários)
Nebraska Furniture Mart (varejo de móveis)
R.C. Willey (varejo de móveis)
Star Furniture (varejo de móveis)
Jordan’s (varejo de móveis)
Borsheims, Helzberg and Ben Bridge (3 joalherias)
See’s Candies
Pampered Chef (acessórios de cozinha)
Oriental Trading Company (suprimentos de escolas)
Lubrizol (produtos químicos)
Clayton Homes (construtora de casas)
XTRA (equipamentos de transporte)
CORT (aluguel de móveis)
28 jornais impressos
NetJets (concessionária de aviões)

Parei aqui. Isso é o principal, mas não é tudo. Sempre tem um "outros" ao final das citações das empresas. Veja que tem de tudo, setores regulados e não regulados, varejo, indústria, commodities,  supérfluos,  bem de consumo, bem durável e serviços variados.


Desculpem, mas se isso não é diversificação, o que será então? Ou o que ele prega só vale para os outros?


E ele nessa carta reconhece indiretamente sua diversificação quando cita como vantagem as múltiplas possibilidades de negócios:



"And here we have an advantage: Because we operate in so many areas of the economy, we enjoy a range of choices far wider than that open to most corporations."


"E aqui temos uma vantagem: Como operamos em muitas áreas da economia, temos um leque de opções muito mais amplo do que o aberto para a maioria das empresas."


Ainda não está convencido de que ele está bem diversificado?


Pois isso não é tudo. No geral, a Berkshire ou é proprietária integral ou majoritária dessas empresas citadas, portanto controladora dessas empresas. No entanto, a Berkshire ainda é acionista minoritária (sem controle) das seguintes empresas, com valores que variam de 1 a 15 bilhões de dólares por empresa:


American Express Company
The Coca-Cola Company
ConocoPhillips 
DIRECTV
International Business Machines Corp
Moody’s Corporation
Munich Re 
Phillips
POSCO
The Procter & Gamble Company
Sanofi
Tesco plc
U.S. Bancorp
Wal-Mart Stores, Inc
Wells Fargo & Company

Além é claro de "Outras" que ele não discrimina na carta.


Eu poderia ter parado a pesquisa por aqui. A diversificação dele é patente, mas resolvi pesquisar nas cartas passadas e veja o que encontrei na carta de 2004 que nas palavras dele confirmam a diversificação:

"Between 1964 and 2004, Berkshire morphed from a struggling northern textile business whose intrinsic value was less than book into a diversified enterprise worth far more than book."

"Entre 1964 e 2004, Berkshire se transformou de uma problemática empresa têxtil do norte cujo valor intrínseco era menor do que o contábil em uma empresa diversificada que vale muito mais do que o seu valor contábil."


E ele ainda quer que você compre só 6 papeis. Com certeza uma carteira com 6 papeis tem um potencial de valorização muito maior  (ou muito menor) do que uma com 60, mas isso cobra um preço, uma volatilidade monstro. Haja coração para tanta emoção e obstinação para manter-se na estratégia.


Uma estratégia de investimento pode levar anos para mostrar seus resultados, é mais fácil desistir pelo caminho, mais fácil ainda depois de uma grande queda. Ou você acredita que algum buy and hold olha cotação só uma vez por ano? De hora em hora é mais próximo da realidade. Enquanto isso o portfolio dele é toda intertravado por setores econômicos descorrelacionados.

Conclusão

Se você quiser fazer parte do 1% dono de seu próprio nariz, prepare-se para estudar, ler, dedicar-se. Ainda assim você corre o risco de ver o seu esforço não valer a pena e não obter uma vantagem sobre o mercado. Nesse caso, aceite a realidade e aplique num fundo de índice. Para isso, desde o primeiro dia de investimento, rastreie a rentabilidade de sua carteira de forma precisa. Não se engane. Só ela vai dizer se seu esforço está sendo recompensado ou não.


E mesmo que você só olhe cotação uma vez por ano e saiba tudo de suas empresas e almoce todo dia com os CEOs das suas empresas, lembre-se: eles não têm as rédeas sobre tudo que pode acontecer com elas. Catástrofes naturais, intervenções governamentais, sabotagem, novas tecnologias patenteadas por concorrentes, mudança de comportamento do consumidor, todas estão fora de suas alçadas de controle.


Então, avalie os riscos em que esteja incorrendo pela concentração de ativos. Assim como tem muitos vencedores que apostaram em 6 papeis, deve ter um número maior ainda de perdedores que apostaram em 6 ou menos papeis. Mas esses últimos nunca aparecem, menos ainda ficam famosos.


Você é o único responsável pelo destino de seus investimentos, seja no sucesso quanto no fracasso.

E por último, mas não menos importante, nunca, jamais, never, ever faça All in.


Sucesso a todos nos investimentos,

Primeiro Bilhão